quinta-feira, junho 23, 2011
Falecimento de um dos fundadores deste Blog
domingo, março 06, 2011
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e assim nasceu. e falava. assiduamente.
era como o verão. que se abrira. recente.
como um clarão rubro de inocência. bebia
então taças tecidas de espanto. o
exílio.
iniciara-se. como uma teia. tecida lentamente. por
estranha e eterna aranha.
quando parido. por um período de vida.
fecundo. a mãe
linda. morrera ao pari-lo. que
eternidade vazia e vã. como a de
um deus. mítico ou não. que interessa isso.
para a posteridade.
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Manoel Cardôzo
lxª18.07.2003
De A Duração da Eternidade
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Duas leituras do mesmo poema
Em ressonância com o nome deste blogue.
Com a autorização do poeta.
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quinta-feira, fevereiro 03, 2011
sábado, fevereiro 27, 2010
O olhar puro, olhar apenas.
Um olhar que esquece (coloca entre parêntesis) o que está significando, a intenção, o sentido. Fica-se pelo fluxo, pela folha cheia de letrinhas sem qualquer significação linguística.
O ver, pelo contrário, já padece desse vício mental. Dessa actividade fervilhante e muitas vezes entrópica. Focaliza, delimita, organiza, pré-condiciona o acto, a percepção.
"Trata-se em o Visível e o Invisível (Le Visible et l'Invisible de Merleau-Ponty) de 'superar' a fenomenologia, em particular a da percepção. [...] A dificuldade vinha da ligação que a noção de experiência estabelece entre os sentidos e a consciência. [24] [...]
A visibilidade secreta, a visão de dentro que atapeta a visão de fora não possui [em Merleau-Ponty] um estatuto claro. [33]
Talvez estas dificuldades de Merleau-Ponty se liguem ao facto de ele não distinguir o olhar da visão. [47]
Para ver, é preciso olhar; mas pode-se olhar sem ver. Pode-se até ver mais, olhando; não só receber estímulos , descodificá-los (ver), mas fazer intervir o corpo na paisagem. Entre o 'ver passar barcos' e 'olhar os barcos que passam', há a diferença entre a distância (entre o sujeito e os barcos) e uma subtil aproximação (de qualquer coisa que vem da passagem dos barcos para aquele que olha, e que determina a sua atitude)." [48]
"Olhar - não ver, unicamente - é dizer as coisas - não ainda nomeá-las - construindo um continuum articulado na visão maciça; é fazer irromper movimentos imperceptíveis entre as coisas, juntá-las em unidades quase discretas, amontoados, aglomerados, tufos, abrindo na paisagem brechas imediatamente colmatadas pelas pequenas percepções que compõem as articulações insensíveis" [52].
José Gil, A imagem-nua e as pequenas percepções. Estética e fenomenologia, Lisboa, Relógio de Água, 1996.
sexta-feira, fevereiro 26, 2010
As crenças criam as percepções
Mais vale, como fazem alguns, aceitar o nomadismo, o fluxo constante.
Digo eu, pensando em voz alta.
Talvez tentando discernir no meio da corrente mas de uma forma suave, modesta, tranquila. Acreditar confiando nas suas percepções múltiplas e pessoais (um olhar de criança) sem necessitar de passar pelo crivo mental do aceitável, um juíz externo.
quinta-feira, fevereiro 25, 2010
Muitas vezes, quando escrevo no "messenger", uma dúvida me assalta.
Fiquei sem palavras. Ainda estou sem elas.... Despido.
Tal como ela diz, na magia da escrita/voz interior "me sinto fatal a despeito de mim".
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"Como se eu procurasse não aproveitar a vida imediatamente, mas só a mais profunda, o que me dá dois modos de ser: em vida, observo muito, sou "ativa" nas observações, tenho o senso do ridículo, do bom humor, da ironia, e tomo um partido.
Escrevendo, tenho observações "passivas", tão interiores que "se escrevem" ao mesmo tempo em que são sentidas quase sem o que se chama de processo.
É por isso que no escrever eu não escolho, não posso me multiplicar em mil, me sinto fatal a despeito de mim".
Clarice Lispector, Para não esquecer, 5ª ed., São Paulo, Siciliano, 1992.
quarta-feira, fevereiro 24, 2010
As coisas. Eu devia vê-las, apenas vê-las
Vê-las até não poder mais. Vê-las até que algo se desloca. E uma paz enorme me invade.
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
Uma ciência do ver que não é nenhuma. É uma atenção em si. Um saber feito de saberes antigos.
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"Vive, dizes, no presente.
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade. Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede. O que é o presente? É uma cousa relativa ao passado e ao futuro. É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem. Eu quero só a realidade, as cousas sem presente. Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes, quero pensar nelas como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes. Eu nem por reais as devia tratar. Eu não as devia tratar por nada. Eu devia vê-las, apenas vê-las. Vê-las até não poder pensar nelas, vê-las sem tempo, nem espaço, ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma."
Alberto Caeiro
terça-feira, fevereiro 23, 2010
Espelho Enevoado
quinta-feira, fevereiro 18, 2010
Carpe Diem
segunda-feira, fevereiro 15, 2010
"Rapture" - Uma música de Laura Veirs
quarta-feira, novembro 18, 2009
"Probar la soledad sin que el vinagre haga torcer mi boca"
domingo, novembro 30, 2008
Um texto curioso de Carlos Castaneda
Parece-me contudo que pode ser interessante tentar perceber, na medida do possível, porque é que foi um dos inspiradores do movimento New Age nos anos 60 do séc. XX. Um movimento que marca sem dúvida a nossa forma de viver actual.
Nesse sentido, encontrei um outro texto que nos revela o centro do olhar de Castaneda.
"Uma das mais contundentes e urgentes revelações do escritor Carlos Castaneda foi feita apenas em suas últimas obras, primeiramente no incerto livro “Passes Mágicos” (pg. 101 da primeira edição brasileira, se não me falha) e depois mais detalhadamente no capítulo “Sombras de Barro” de “O lado ativo do infinito”.
Nessas páginas é explicada a figura do predador natural do homem. Como sabemos, no universo conceitual desse autor a consciência é um elemento do ambiente, um brilho que se forma ao redor do “ponto de aglutinação” e se desdobra na medida em que se vive, pela razão de existir. Os videntes da linhagem tolteca teriam visto que no ser humano há uma capa brilhante de consciência que permeia o ovo luminoso, e que essa capa é devorada, colhida, incessantemente, pelo predador, até que só reste uma pequena franja luminosa por sobre os pés. Essa franja seria o centro da auto-reflexão, do eu, do diálogo interno, e permitira o homem a continuar vivendo, mas só vivendo. Isso se enquadra perfeitamente nas violentas críticas à auto-importância e vaidade que o autor tece durante toda a sua obra.
As tais sombras voadoras, um tipo de ser inorgânico hostil à humanidade, passariam, para manter o controle, “informações telepáticas” ao homem, ditando muitas vezes a sua forma de pensar, confundindo sua mente. Daí que a estratégia do guerreiro é manipular de tal modo sua conscientização, vencendo a auto-reflexão, até que ela passe a ser impalatável ao predador. Obedecendo a cada comando do infinito, o guerreiro se agarra a uma forma maior que si mesmo, e a partir daí a capa brilhante de consciência, tão vivaz durante a infância, passa a se reacender e acumular-se, progressivamente. Seria uma maneira do universo – e com este ninguém brinca - testar e desafiar o homem, tornando-o apto a cumprir seu destino mágico. Bom, não vou entrar em detalhes, quem quiser que se remeta às passagens citadas, mas o que queria enfatizar é que, na visão desse autor, não é necessariamente você quem está pensando nesse momento, mas sim o predador que empresta sua mente através da “instalação forânea” que mantém em seu rebanho."
Ver aqui:
http://blog.cybershark.net/miguel/index.php/page/2- /
A fenda aberta
"Oh não, um escritor não pode desejar ser "conhecido", reconhecido.
O imperceptível, característica comum da mais alta velocidade e da maior lentidão.
Perder o rosto, saltar ou furar o muro, limá-lo muito pacientemente, escrever não tem outro fim.
É o que Fitzgerald chamava verdadeira ruptura: a linha de fuga, não a viagem nos Mares do Sul, mas a aquisição de uma clandestinidade (mesmo se se deve devir animal, devir preto ou mulher).
Ser finalmente desconhecido, como muito pouca gente o é, é isso, trair.
É muito difícil deixar de ser conhecido, mesmo da porteira, ou no bairro, o cantor sem nome, o ritornelo.
[...] O herói dissipa-se literalmente, geograficamente. O belo texto de Fitzgerald, THE CRACK UP, diz:
"Eu sentia-me como os homens que via nos combois de subúrbio, em Great Neck, já lá vão quinze anos, homens que não estavam interessados em saber se o mundo ia afundar-se num caos, no dia seguinte, desde que a sua própria casa fosse poupada. Eu passava a ser como eles, coisa gorducha como as que sabem dizer:
- Lamento muito, mas negócios são negócios. Ou:
- Você devia ter pensado nisso, antes de os problemas surgirem. Ou:
- O assunto não me diz respeito."
[F. Scott Fitzgerald, A FENDA ABERTA, Hiena Editora, Lisboa, 1986.]
Há todo um sistema social que poderíamos chamar sistema muro branco - buraco negro.
Estamos todos pregados no muro das significações dominantes, estamos sempre enterrados no buraco da nossa subjectividade, o buraco negro do nosso Eu que nos é o mais caro de tudo.
Muro onde se inscrevem todas as determinações objectivas que nos fixam, nos encaixilham, nos identificam e nos fazem reconhecer; buraco onde nos alojamos, com a nossa consciência, os nossos sentimentos, as paixões, os nossos pequenos segredos demasiado conhecidos, o nosso desejo de os fazer conhecer.
Ainda que o rosto seja um produto deste sistema, é uma produção social: grande rosto de faces brancas, com o buraco negro dos olhos.
As nossas sociedades têm necessidade de produzir rosto.
Cristo inventou o rosto.
O problema de Miller (que já era o de Lawrence): como desfazer o rosto, libertanto em nós as escavadoras que traçam linhas de devir?
Como passar o muro, evitando ressaltar, para trás, ou ser esmagados?
Como sair do buraco negro, em vez de girar no fundo, que partículas fazer sair do buraco negro?
Como quebrar mesmo o nosso amor para se ser finalmente capaz de amar?
Como devir imperceptível?
"Je ne regarde plus dans les yeux de la femme que je tiens dans mes bras, mais je les traverse à la nage, tête, bras et jambes en entier, et je vois que derrière les orbitres de ces yeux s'étend un monde inexploré, monde de choses futures, et de ce monde toute logique est absente… L'œil, libéré du soi, ne révèle ni n'illumine plus, il court le long de la ligne d'horizon, voyageur éternel et privé d'informations… J'ai brisé le mur que crée la naissance, et le tracé de mon voyage est courbe et fermé, sans rupture… Mon corps entier doit devenir rayon perpétuel de lumière toujours plus grande… Je scelle donc mes oreilles, mes yeux, mes lèvres. Avant de redevenir tout à fait homme, il est probable que j'existerai en tant que parc…" [Henry Miller, TROPIQUE DU CAPRICORNE, éd. du Chêne, p. 177.] "
Passagem de DIALOGUES (de Gilles Deleuze e Claire Parnet, Flammarion, Paris, 1977, pp.56-58).
Tradução de Edmundo Cordeiro
sábado, novembro 01, 2008
Cuando el pensamiento analítico...
Robert M. Pirsig
Zen y el arte del mantenimiento de la motocicleta
domingo, outubro 12, 2008
"Tenho desejado afastar-me" Dylan Thomas
Do silvo da mentira gasta e sibilante
E do grito contínuo dos velhos terrores
Que ficam mais terríveis à medida que o dia
Atravessa as montanhas mergulhando no mar profundo...
[...]
Tenho desejado afastar-me, mas tenho medo;
Alguma vida, ainda não gasta, pode explodir
Da velha mentira que arde no chão,
E, crepitando no ar, deixar-me meio cego.
[...]
Versão original:
I Have Longed To Move Away
by Dylan Thomas
I have longed to move away
From the hissing of the spent lie
And the old terrors' continual cry
Growing more terrible as the day
Goes over the hill into the deep sea;
I have longed to move away
From the repetition of salutes,
For there are ghosts in the air
And ghostly echoes on paper,
And the thunder of calls and notes.
I have longed to move away but am afraid;
Some life, yet unspent, might explode
Out of the old lie burning on the ground,
And, crackling into the air, leave me half-blind.
Neither by night's ancient fear,
The parting of hat from hair,
Pursed lips at the receiver,
Shall I fall to death's feather.
By these I would not care to die,
Half convention and half lie.
segunda-feira, julho 14, 2008
sábado, julho 05, 2008
É o pequeno eu que teme pela sua morte...
Mas o movimento da cultura não cessa de produzir a morte do pequeno eu. Ali onde transparece o a-fundamento e o afundamento do eu, a cultura é uma força viva; lá onde o eu triunfa, a cultura está morta ou claudicante, subjugada por forças de outra natureza. Não, a cultura não se exprime no conhecimento de nomes, formas e fórmulas, e sequer no conhecimento enquanto tal. Ao contrário, ela se exprime na conquista de uma potência que está muito além do eu e suas propriedades. Inversamente, esse homem soberano, criador, esse iluminado luminoso que é a finalidade da cultura só se torna possível se a cultura é uma força viva.
Mas é isso que se apresenta no campo social capitalista? Seria o capitalismo a morte da própria cultura?"
in http://triagem.blogspot.com/2005/05/cultura-e-mort- e-3.html
quinta-feira, junho 19, 2008
segunda-feira, maio 05, 2008
quinta-feira, maio 01, 2008
O Eco
O capim se inclina entre os errantes vaga-lumes;
pequenas asas de perfume saem de coisas invisíveis:
no chão, branco de lua, ele prega e desprega as patas, com sombra.
Prega, desprega e pára.
Deve ser água, o que brilha como estrela, na terra plácida.
Serão joias perdidas, que a lua apanha em sua mão?
Ah!... não é isso...
E alta noite, pelo morro em silêncio, desce o pobre animal
sozinho.
Em cima, vai ficando o céu. Tão grande. Claro. Liso.
Ao longe, desponta o mar, depois das areias espessas.
As casa fechadas esfriam, esfriam as folhas das árvores.
As pedras estão como muitos mortos: ao lado um do outro,
mas estranhos.
E ele pára, e vira a cabeça. E mira com seus olhos de homem.
Não é nada disso, porém...
Alta noite, diante do oceano, senta-se o animal, em silêncio.
Balançam-se as ondas negras. As cores do farol se alternam.
Não existe horizonte. A água se acaba em ténue espuma.
Não é isso! Não é isso!
Não é a água perdida, a lua andante, a areia exposta...
E o animal se levanta e ergue a cabeça, e late... late...
E o eco responde.
Sua orelha estremece. Seu coração se derrama na noite.
Ah! para aquele lado apressa o passo, em busca do eco."
Cecília Meireles, Antologia Poética, Lisboa, Relógio D'Água,2002, p.56.

