"A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas".
Sophia de Mello Breyner
Um eco que me liga à terra. Não é fácil ouvir esse eco pois exige treino e disciplina. E insistência. Por fim, surge e acorda a sensação de plenitude. De ligação a uma força maior. Como se fosses parte de um todo infinito.
Há dias em que ele surge.. O eco. No momento em que ando. Passo atrás de passo. Pouco a pouco o ritmo torna-se hipnótico. E, sem o saber, parece que não ando mas voo. Como se fosse um pássaro planando...
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terça-feira, abril 08, 2008
A perfeição nasce do eco dos teus passos.
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Sophia Mello Breyner
terça-feira, dezembro 18, 2007
Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste...
Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste...
"Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste:
"Parece Sexta-Feira de Paixão.
Sempre a cismar, cismar de olhos no chão,
Sempre a pensar na dor que não existe...
O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
Faça por estar contente! Pois então?!..."
Quando se sofre, o que se diz é vão...
Meu coração, tudo, calado, ouviste...
Os meus males ninguém mos adivinha...
A minha Dor não fala, anda sozinha...
Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!...
Os males de Anto toda a gente os sabe!
Os meus ...ninguém... A minha Dor não cabe
Em cem milhões de versos que eu fizera!...
Florbela Espanca
........................................................................
Uma dor que não cabe em cem milhões de versos.
Nenhuma palavra exprime a dor. Nenhuma.
Não cabe dentro da palavra. Nunca coube. Por isso, aquele que escreve é também um construtor de metáforas sempre pobres perante este oceano que é a vida. As palavras são frágeis linhas que se lançam na imensidão da dor, da nossa dor original. Palavras que nos orientam no caos.
.....................................................
Há uma força telúrica em Florbela Espanca. Algo que chega a assustar alguns. Talvez haja, nesta força da natureza, uma voz que vem do fundo. A nossa voz esquecida. Um olhar anterior. Primordial. Uma voz que, no nosso dia-a-dia feito de pequenos consumos e pequenas vidinhas, acaba por desaparecer em muitos de nós... Infelizmente.
"Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste:
"Parece Sexta-Feira de Paixão.
Sempre a cismar, cismar de olhos no chão,
Sempre a pensar na dor que não existe...
O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
Faça por estar contente! Pois então?!..."
Quando se sofre, o que se diz é vão...
Meu coração, tudo, calado, ouviste...
Os meus males ninguém mos adivinha...
A minha Dor não fala, anda sozinha...
Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!...
Os males de Anto toda a gente os sabe!
Os meus ...ninguém... A minha Dor não cabe
Em cem milhões de versos que eu fizera!...
Florbela Espanca
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Uma dor que não cabe em cem milhões de versos.
Nenhuma palavra exprime a dor. Nenhuma.
Não cabe dentro da palavra. Nunca coube. Por isso, aquele que escreve é também um construtor de metáforas sempre pobres perante este oceano que é a vida. As palavras são frágeis linhas que se lançam na imensidão da dor, da nossa dor original. Palavras que nos orientam no caos.
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Há uma força telúrica em Florbela Espanca. Algo que chega a assustar alguns. Talvez haja, nesta força da natureza, uma voz que vem do fundo. A nossa voz esquecida. Um olhar anterior. Primordial. Uma voz que, no nosso dia-a-dia feito de pequenos consumos e pequenas vidinhas, acaba por desaparecer em muitos de nós... Infelizmente.
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terça-feira, outubro 31, 2006
Alfabeto

Alfabeto
Estava eu no frio da morte a aproximar-se, quando pela derradeira vez me pus a fitar os seres, profundamente.
Ante o contacto mortal deste olhar de gelo, tudo o que não era essencial desapareceu. Entretanto eu ia-os perscrutando, querendo reter deles algo que nem o Morto pusesse largar. Eles adelgaçaram-se e acabaram por ficar reduzidos a uma espécie de alfabeto, mas um alfabeto capaz de servir no outro mundo, em qualquer mundo.
Aliviei-me assim do medo de me subtraírem o universo inteiro onde eu tinha vivido. Fortalecido com tal presa, contemplava-o invencido, e regressando o sangue, com a satisfação, às minhas arteríolas e veias, lentamente voltei a subir a vertente aberta da existência.
Henri Michaux, O retiro pelo risco Lisboa Fenda, pp. 34-35
Estava eu no frio da morte a aproximar-se, quando pela derradeira vez me pus a fitar os seres, profundamente.
Ante o contacto mortal deste olhar de gelo, tudo o que não era essencial desapareceu. Entretanto eu ia-os perscrutando, querendo reter deles algo que nem o Morto pusesse largar. Eles adelgaçaram-se e acabaram por ficar reduzidos a uma espécie de alfabeto, mas um alfabeto capaz de servir no outro mundo, em qualquer mundo.
Aliviei-me assim do medo de me subtraírem o universo inteiro onde eu tinha vivido. Fortalecido com tal presa, contemplava-o invencido, e regressando o sangue, com a satisfação, às minhas arteríolas e veias, lentamente voltei a subir a vertente aberta da existência.
Henri Michaux, O retiro pelo risco Lisboa Fenda, pp. 34-35
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