Quarta-feira, Novembro 18, 2009

"Probar la soledad sin que el vinagre haga torcer mi boca"

"Probar la soledad sin que el vinagre haga torcer mi boca"

Confesso que, muitas vezes, tive a sensação aguda de solidão. Como se tudo e todos me abandonassem. Uma sensação de solidão dolorosa. Derivada, muitas vezes, de não ser capaz de dizer claramente o quanto amava os meus mais próximos. Com o fluxo dos anos, aprendi a não dar muita importância. A saber esperar. Aprender a aceitar.

Como diz o psicanalista Jacques Lacan, na solidão, sente-se a lacuna, o vazio que os outros tentam preencher desesperadamente com o Eu. Este Eu, criado no mimetismo da infância, é uma "instância de desconhecimento, de ilusão, de alienação, sede do narcisismo. É o momento do Estádio do Espelho". Um Eu criado pelo nosso Imaginário, "juntamente com fenómenos como o amor, o ódio, a agressividade" (em Jacques Lacan - Wikipedia).

Ainda de acordo com Jacques Lacan, somos seres em angústia pela nossa ligação demasiado intensa, mimética com a mãe enquanto crianças. Somos, na verdade, o animal que passa mais tempo nesse estado de osmose depois de nascer. Por isso, mais tarde o apaixonado, numa regressão sublime, sente-se como uma criança que procura desesperadamente o olhar do ser amado. Sente-se desamparado procurando sempre o outro, o amor, a todo o momento. Num impulso biológico muito forte.

Desta forma, a solidão faz-nos sentir autênticamente a condição humana. Essa estranheza que, se vivida directamente e com aceitação, nos abre as portas da percepção de um novo mundo. Essa consciência de estar aqui como que abandonados, como hóspedes transitórios da Terra como dizia Heidegger, faz parte da nossa condição básica de humano que tentamos evitar no nosso quotidiano normalizado.


Essa consciência pode ser a fonte de uma vida mais profunda e intensa. A solidão assumida, muitas vezes rodeada de muitas solidariedades subterrâneas, pode-nos abrir para o mundo de uma forma fantástica. Podemos aceder a outras percepções que, enquanto mergulhados na euforia do social, tendemos a esquecer. O hinduísmo e o budismo (e os nossos místicos ocidentais como San Juan de la Cruz, Jesus, etc...) descrevem de forma admirável esse caminho pessoal de meditação.

Como diz Octávio Paz, pode-se provar a solidão sem ficar azedo.


"
probar la soledad sin que el vinagre
haga torcer mi boca, ni repita
mis muecas el espejo, ni el silencio
se erice con los dientes que rechinan"


(Vida Sencilla)

Domingo, Novembro 30, 2008

Um texto curioso de Carlos Castaneda

Carlos Castaneda. Estamos perante um autor classificado, por muitos, como estranho e esotérico.

Parece-me contudo que pode ser interessante tentar perceber, na medida do possível, porque é que foi um dos inspiradores do movimento New Age nos anos 60 do séc. XX. Um movimento que marca sem dúvida a nossa forma de viver actual.

Nesse sentido, encontrei um outro texto que nos revela o centro do olhar de Castaneda.


"Uma das mais contundentes e urgentes revelações do escritor Carlos Castaneda foi feita apenas em suas últimas obras, primeiramente no incerto livro “Passes Mágicos” (pg. 101 da primeira edição brasileira, se não me falha) e depois mais detalhadamente no capítulo “Sombras de Barro” de “O lado ativo do infinito”.

Nessas páginas é explicada a figura do predador natural do homem. Como sabemos, no universo conceitual desse autor a consciência é um elemento do ambiente, um brilho que se forma ao redor do “ponto de aglutinação” e se desdobra na medida em que se vive, pela razão de existir. Os videntes da linhagem tolteca teriam visto que no ser humano há uma capa brilhante de consciência que permeia o ovo luminoso, e que essa capa é devorada, colhida, incessantemente, pelo predador, até que só reste uma pequena franja luminosa por sobre os pés. Essa franja seria o centro da auto-reflexão, do eu, do diálogo interno, e permitira o homem a continuar vivendo, mas só vivendo. Isso se enquadra perfeitamente nas violentas críticas à auto-importância e vaidade que o autor tece durante toda a sua obra.

As tais sombras voadoras, um tipo de ser inorgânico hostil à humanidade, passariam, para manter o controle, “informações telepáticas” ao homem, ditando muitas vezes a sua forma de pensar, confundindo sua mente. Daí que a estratégia do guerreiro é manipular de tal modo sua conscientização, vencendo a auto-reflexão, até que ela passe a ser impalatável ao predador. Obedecendo a cada comando do infinito, o guerreiro se agarra a uma forma maior que si mesmo, e a partir daí a capa brilhante de consciência, tão vivaz durante a infância, passa a se reacender e acumular-se, progressivamente. Seria uma maneira do universo – e com este ninguém brinca - testar e desafiar o homem, tornando-o apto a cumprir seu destino mágico. Bom, não vou entrar em detalhes, quem quiser que se remeta às passagens citadas, mas o que queria enfatizar é que, na visão desse autor, não é necessariamente você quem está pensando nesse momento, mas sim o predador que empresta sua mente através da “instalação forânea” que mantém em seu rebanho."

Ver aqui:

http://blog.cybershark.net/miguel/index.php/page/2- /

A fenda aberta


"Oh não, um escritor não pode desejar ser "conhecido", reconhecido.


O imperceptível, característica comum da mais alta velocidade e da maior lentidão.

Perder o rosto, saltar ou furar o muro, limá-lo muito pacientemente, escrever não tem outro fim.

É o que Fitzgerald chamava verdadeira ruptura: a linha de fuga, não a viagem nos Mares do Sul, mas a aquisição de uma clandestinidade (mesmo se se deve devir animal, devir preto ou mulher).

Ser finalmente desconhecido, como muito pouca gente o é, é isso, trair.

É muito difícil deixar de ser conhecido, mesmo da porteira, ou no bairro, o cantor sem nome, o ritornelo.


[...] O herói dissipa-se literalmente, geograficamente. O belo texto de Fitzgerald, THE CRACK UP, diz:
"Eu sentia-me como os homens que via nos combois de subúrbio, em Great Neck, já lá vão quinze anos, homens que não estavam interessados em saber se o mundo ia afundar-se num caos, no dia seguinte, desde que a sua própria casa fosse poupada. Eu passava a ser como eles, coisa gorducha como as que sabem dizer:
- Lamento muito, mas negócios são negócios. Ou:
- Você devia ter pensado nisso, antes de os problemas surgirem. Ou:
- O assunto não me diz respeito."

[F. Scott Fitzgerald, A FENDA ABERTA, Hiena Editora, Lisboa, 1986.]


Há todo um sistema social que poderíamos chamar sistema muro branco - buraco negro.
Estamos todos pregados no muro das significações dominantes, estamos sempre enterrados no buraco da nossa subjectividade, o buraco negro do nosso Eu que nos é o mais caro de tudo.
Muro onde se inscrevem todas as determinações objectivas que nos fixam, nos encaixilham, nos identificam e nos fazem reconhecer; buraco onde nos alojamos, com a nossa consciência, os nossos sentimentos, as paixões, os nossos pequenos segredos demasiado conhecidos, o nosso desejo de os fazer conhecer.
Ainda que o rosto seja um produto deste sistema, é uma produção social: grande rosto de faces brancas, com o buraco negro dos olhos.
As nossas sociedades têm necessidade de produzir rosto.
Cristo inventou o rosto.



O problema de Miller (que já era o de Lawrence): como desfazer o rosto, libertanto em nós as escavadoras que traçam linhas de devir?


Como passar o muro, evitando ressaltar, para trás, ou ser esmagados?


Como sair do buraco negro, em vez de girar no fundo, que partículas fazer sair do buraco negro?




Como quebrar mesmo o nosso amor para se ser finalmente capaz de amar?


Como devir imperceptível?




"Je ne regarde plus dans les yeux de la femme que je tiens dans mes bras, mais je les traverse à la nage, tête, bras et jambes en entier, et je vois que derrière les orbitres de ces yeux s'étend un monde inexploré, monde de choses futures, et de ce monde toute logique est absente… L'œil, libéré du soi, ne révèle ni n'illumine plus, il court le long de la ligne d'horizon, voyageur éternel et privé d'informations… J'ai brisé le mur que crée la naissance, et le tracé de mon voyage est courbe et fermé, sans rupture… Mon corps entier doit devenir rayon perpétuel de lumière toujours plus grande… Je scelle donc mes oreilles, mes yeux, mes lèvres. Avant de redevenir tout à fait homme, il est probable que j'existerai en tant que parc…" [Henry Miller, TROPIQUE DU CAPRICORNE, éd. du Chêne, p. 177.] "


Passagem de DIALOGUES (de Gilles Deleuze e Claire Parnet, Flammarion, Paris, 1977, pp.56-58).

Tradução de Edmundo Cordeiro

Sábado, Novembro 01, 2008

Cuando el pensamiento analítico...

"Cuando el pensamiento analítico - el cuchillo - es aplicado a la experiencia, siempre hay algo a lo que se le da muerte en el proceso. Esto es cosa entendida en las artes. Mark Twain, después de haber reunido los conocimientos suficientes como para pilotear una embarcación en el Mississippi, descubrió que el río había perdido su belleza".

Robert M. Pirsig

Zen y el arte del mantenimiento de la motocicleta

Domingo, Outubro 12, 2008

"Tenho desejado afastar-me" Dylan Thomas

Tenho desejado afastar-me
Do silvo da mentira gasta e sibilante
E do grito contínuo dos velhos terrores
Que ficam mais terríveis à medida que o dia
Atravessa as montanhas mergulhando no mar profundo...

[...]

Tenho desejado afastar-me, mas tenho medo;
Alguma vida, ainda não gasta, pode explodir
Da velha mentira que arde no chão,
E, crepitando no ar, deixar-me meio cego.


[...]


Versão original:

I Have Longed To Move Away
by Dylan Thomas

I have longed to move away
From the hissing of the spent lie
And the old terrors' continual cry
Growing more terrible as the day
Goes over the hill into the deep sea;

I have longed to move away
From the repetition of salutes,
For there are ghosts in the air
And ghostly echoes on paper,
And the thunder of calls and notes.

I have longed to move away but am afraid;
Some life, yet unspent, might explode
Out of the old lie burning on the ground,
And, crackling into the air, leave me half-blind.
Neither by night's ancient fear,
The parting of hat from hair,
Pursed lips at the receiver,
Shall I fall to death's feather.
By these I would not care to die,
Half convention and half lie.

Segunda-feira, Julho 14, 2008

Eu não sou eu.
..........................Sou este
que vai a meu lado sem eu vê-lo;
que, por vezes, vou ver,
e que, às vezes, esqueço.
O que se cala, sereno,quando falo,
o que perdoa, doce, quando odeio,
o que passeia por onde estou ausente,
o que ficará de pé quando eu morrer.


Juan Ramón Jimenez

Sábado, Julho 05, 2008

É o pequeno eu que teme pela sua morte...

"É o pequeno eu que teme pela sua morte e inventa para si sobrevivências morais, transmigratórias ou celestes. É ele que se compraz com o poder e o reconhecimento. É ele que mergulha nos jogos do capital para mascarar sua impotência absoluta.

Mas o movimento da cultura não cessa de produzir a morte do pequeno eu. Ali onde transparece o a-fundamento e o afundamento do eu, a cultura é uma força viva; lá onde o eu triunfa, a cultura está morta ou claudicante, subjugada por forças de outra natureza. Não, a cultura não se exprime no conhecimento de nomes, formas e fórmulas, e sequer no conhecimento enquanto tal. Ao contrário, ela se exprime na conquista de uma potência que está muito além do eu e suas propriedades. Inversamente, esse homem soberano, criador, esse iluminado luminoso que é a finalidade da cultura só se torna possível se a cultura é uma força viva.

Mas é isso que se apresenta no campo social capitalista? Seria o capitalismo a morte da própria cultura?"

in http://triagem.blogspot.com/2005/05/cultura-e-mort- e-3.html

Quinta-feira, Junho 19, 2008



.

Transe. Assemblagem, caixa relicário. Madeira, palha, acrílico, sapatos, etc., 90x17x70cm+-,2001.

L.T.

Segunda-feira, Maio 05, 2008

Xamã








'Xamã', painting by Luís Tavares. The colors of the 'Xamã'. Técnica mistas/tela, 26x33cm, 1999.
Colecção privada.

Quinta-feira, Maio 01, 2008

O Eco

"Alta noite, o pobre animal aparece no morro, em silêncio.
O capim se inclina entre os errantes vaga-lumes;
pequenas asas de perfume saem de coisas invisíveis:
no chão, branco de lua, ele prega e desprega as patas, com sombra.

Prega, desprega e pára.
Deve ser água, o que brilha como estrela, na terra plácida.
Serão joias perdidas, que a lua apanha em sua mão?
Ah!... não é isso...

E alta noite, pelo morro em silêncio, desce o pobre animal
sozinho.

Em cima, vai ficando o céu. Tão grande. Claro. Liso.
Ao longe, desponta o mar, depois das areias espessas.
As casa fechadas esfriam, esfriam as folhas das árvores.
As pedras estão como muitos mortos: ao lado um do outro,
mas estranhos.
E ele pára, e vira a cabeça. E mira com seus olhos de homem.
Não é nada disso, porém...

Alta noite, diante do oceano, senta-se o animal, em silêncio.
Balançam-se as ondas negras. As cores do farol se alternam.
Não existe horizonte. A água se acaba em ténue espuma.
Não é isso! Não é isso!
Não é a água perdida, a lua andante, a areia exposta...
E o animal se levanta e ergue a cabeça, e late... late...

E o eco responde.

Sua orelha estremece. Seu coração se derrama na noite.
Ah! para aquele lado apressa o passo, em busca do eco."


Cecília Meireles, Antologia Poética, Lisboa, Relógio D'Água,2002, p.56.

Terça-feira, Abril 08, 2008

A perfeição nasce do eco dos teus passos.

"A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas".

Sophia de Mello Breyner


Um eco que me liga à terra. Não é fácil ouvir esse eco pois exige treino e disciplina. E insistência. Por fim, surge e acorda a sensação de plenitude. De ligação a uma força maior. Como se fosses parte de um todo infinito.

Há dias em que ele surge.. O eco. No momento em que ando. Passo atrás de passo. Pouco a pouco o ritmo torna-se hipnótico. E, sem o saber, parece que não ando mas voo. Como se fosse um pássaro planando...

Quarta-feira, Abril 02, 2008

Hiroshima Mon Amour!...


Técnica mista sobre tela, 150x100cm, 2001
L.T.
colecção do autor

Domingo, Março 23, 2008

Aquele amor

"Aquele Amor"

Yann Andréa


"Continuo em ter dificuldade em dizer a palavra. Não conseguia dizer o nome dela. Só escrevê-lo. Nunca consegui tratá-la por “tu”. Por vezes ela teria gostado. Que eu a tratasse por “tu”, que a chamasse pelo seu nome. Não me saía da boca, não conseguia. (...) E essa impossibilidade de a chamar pelo nome, acho que vem disto: primeiro li o apelido, olhei para o apelido, o nome e o apelido. E esse nome encantou-me imediatamente. Esse pseudónimo literário. Esse apelido emprestado. Esse nome de autor. Esse nome agradava-me simplesmente. Esse nome agrada-me infinitamente (...)

Sou um leitor. O leitor primordial, visto amar todas as palavras, integralmente, sem qualquer contenção. E esse nome de cinco letras, DURAS, amo-o absolutamente. Caiu-me em cima. Nunca mais a deixei e não a consigo deixar. Nunca. E ela também não.


Mantém-me fechado no quarto escuro. Não suporta que qualquer outra pessoa possa ver-me. Quer ser a preferida. A única. De todos. De toda a gente. E eu, do mesmo modo, sou o preferido.

Gostamos um do outro.

Gostamos infinitamente um do outro.

Gostamos um do outro de modo absoluto.


Você morreu a 3 de Março de 1996 às 8 horas e 15, na sua cama, na rua Saint-Benoît. Eu não vim. Deixei-a. Você morreu. Eu não. Eu fiquei cá e estou aqui a escrever-lhe. E isto fá-la rir: mas por quem é que ele se toma, por um escritor, esta agora. Você ri. E diz: não tem mais nada para fazer, só escrever, não interessa o quê, continue, tem um tema maravilhoso, um tema de ouro, sou eu que lho digo, vá, pare de se armar em parvo, escreva, não vale a pena matar-se, não se faça de imbecil.

Qual é o tema.

E então aparece o sorriso. A sua cara torna-se numa cara de criança, uma criança que sabe, que sabe tudo na inocência perfeita de um ser inaudito. Nesse sorriso da cara toda, da cabeça toda, do espírito todo, do coração todo, poder-se-ia dizer, você diz: o tema sou eu.


Se calhar não devia ter dormido, se calhar devia tê-la ouvido mais, estar mais presente, amar mais, nunca o fazemos o suficiente, não podemos imaginar que o último dia está muito próximo, não podemos porque você fala noites a fio, deveríamos, sim, fazer mais, mas o quê, inventar uma espécie de amor ainda maior do que aqueles livros, mas como fazê-lo, como é possível. Certas noites eu queria dormir e dizia-lhe para se ir embora, para ir para o seu quarto, sozinha perante a morte, certas noites já não aguentava mais, mandava-a embora, fazia-o e nunca uma queixa, ia para o seu quarto furiosa à espera de morrer. No dia seguinte voltava.

Estamos sozinhos fechados neste apartamento da rua Saint-Benoît. Esperamos pelo último dia. Só sabemos isso".

Excertos – Yann Andréa, Aquele Amor, Lisboa, Quetzal Editores [acerca do seu amor pela escritora e cineasta Margerite Duras]

Quinta-feira, Março 20, 2008


Fétiche, 167x45x50cm, acrílico e esmalte sobre porta de janela antiga assente em base rotativa, 2001. Cada imagem encontra-se numa das faces da porta.
Escultura/instalação
Luís Tavares
Colecção particular

Domingo, Março 16, 2008

Olhar

"Trata-se em o Visível e o Invisível (Le Visible et l'Invisible de Merleau-Ponty) de 'superar' a fenomenologia, em particular a da percepção. [...] A dificuldade vinha da ligação que a noção de experiência estabelece entre os sentidos e a consciência. [24] [...]

A visibilidade secreta, a visão de dentro que atapeta a visão de fora não possui [em Merleau-Ponty] um estatuto claro. [33]

Talvez estas dificuldades de Merleau-Ponty se liguem ao facto de ele não distinguir o olhar da visão. [47]

Para ver, é preciso olhar; mas pode-se olhar sem ver. Pode-se até ver mais, olhando; não só receber estímulos , descodificá-los (ver), mas fazer intervir o corpo na paisagem. Entre o ver passar barcos e olhar os barcos que passam, há a diferença entre a distância (entre o sujeito e os barcos) e uma subtil aproximação (de qualquer coisa que evm da passagem dos barcos para aquele que olha, e que determina a sua atitude)." [48]

"Olhar - não ver, unicamente - é dizer as coisas - não ainda nomeá-las - construindo um continuum articulado na visão maciça; é fazer irromper movimentos imperceptíveis entre as coisas, juntá-las em unidades quase discretas, amontoados, aglomerados, tufos, abrindo na paisagem brechas imediatamente colmatadas pelas pequenas percepções que compõem as articulações insensíveis" [52].

José Gil, A imagem-nua e as pequenas percepções. Estética e fenomenologia, Lisboa, Relógio de Água, 1996.

O olhar puro, olhar apenas.

Um olhar que esquece (coloca entre parêntesis) o que está significando, a intenção, o sentido.

Fica-se pelo fluxo, pela folha cheia de letrinhas sem qualquer significação linguística. O ver, pelo contrário, já padece desse vício mental. Dessa actividade fervilhante e muitas vezes entrópica. Focaliza, delimita, organiza, pré-condiciona o acto, a percepção.

Quarta-feira, Março 12, 2008

é rio de luz vertical
que verte
o ocidental verão estrénuo
e suas antigas margens
ladeiam o rio e
a luz
escorre
então suas breves imagens
se malogram
na geração do gume
do olhar
que já mergulhara
nas vísceras do mar

Manoel de Souza-Valente
lxª2007/06/26

Domingo, Março 09, 2008

Maria Gabriela Llansol

Acabou de falecer Maria Gabriela Llansol. Uma escritora. Uma pessoa que amava a escrita, uma outra experiência da vida. Mais intensa.

"... penso em fazer esta experiência: levantar-me numa manhã de inverno, quando ainda fizer escuro [...], ver o dia levantar-se, clarear, eu sempre sentada na minha cadeira de balouço. Começar a mover-me, a dar passos em todos os pequenos percuros que me ligam à casa e, num dado momento, ter a consciência, envolta em cálice, de que o dia nasce..."

(Maria Gabriela Llansol, Do caderno 5 do espólio, 1978).

Ver aqui: http://espacollansol.blogspot.com/2008/03/conscincia-envolta-em-clice-de-que-o.html


Obra: http://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_Gabriela_Llansol

Quinta-feira, Março 06, 2008

Poderemos acaso erguer uma torre de sossego

Poderemos acaso erguer uma torre de sossego
como se estivéssemos no interior do mundo? Nós somos descendentes dos répteis
e por isso amamos o letargo solar entre sombras vegetais
Poderíamos assim ouvir o rumor da ausência
como um rosto entre longínquas nascentes
e a pulsação das pedras o obscuro júbilo do fogo
o sorriso cintilante de um regato
Estaríamos na intimidade do olvido
como a pura ignorância de uma sombra lúcida
Seríamos uma erva escrita pela saliva da terra
numa adequação vibrante e sóbria
Veríamos ascender o obscuro em lâmpadas nuas
e toda a espessura seria dúctil e porosa
A identidade encontraria a origem numa flora leve
a hospitalidade de uma terra
nas constelações de argila basalto e esterco

António Ramos Rosa, Génese, Lisboa, Roma Editora, 2007, p.71

Terça-feira, Março 04, 2008

Meditation

"He whose happiness is within, whose contentment is within, whose light is all within, that yogui, being one with Brahman, attains eternal freedom in divine consciousness".

Bhagavad - Gita

"When I first heard about meditation, I had zero interest in it. I wasn't even curious. It sounded like a waste of time.
What got me interested, though, was the phrase "true hapiness lies within". At first I tought it sound kind of mean, because it doesn´t tell you where the "within" is, or how to get there. But still it had a ring of truth. And I began to think that maybe meditation was a way to go within.

I looked into meditation, asked some questions, and started contemplating different forms. At that moment, my sister called and said she had been doing Transcendental Meditation for six months. There was something in her voice. A change. A quality of happiness. And I thought, 'That's what I want'.

So in July 1973 I went to the Transcendental Meditation center in Los Angeles and met an instructor, and I liked her. She looked like Doris Day. And she taugh me this technique. She gave me a mantra, which is a sound-vibration-thought.

She took me into a little room to have my first meditation. I sat down, closed my eyes, started this mantra, and it was as if I were in an elevator and the cable had ben cut. Boom! I fell into bliss - pure bliss. And I was just in there. Then the teacher said. "It's time to come out; it's been twenty minutes." And I said, "IT'S ALREADY BEEN TWENTY MINUTES?!" And she said, "Shhhh!" because other people were meditating. It seemed so familiar, but also so new and powerful. After that, I said the word "unique" should be reserved to that experience."




David Lynch, Catching the Big Fish. Meditation, Conscious, and creativity.New York, Jeremy P. Tarcher/Penguin,2007, p. 3-4.




David Lynch - realizador de cinema.
Filmes: Eraserhead, The Elephant Man, Wild at Heart, Twin Peaks, Blue Velvet, Mulholland Drive e Inland Empire.

Domingo, Março 02, 2008

A monk asked Pai-chang (720-814), “Who is the Buddha?” Pai-chang answered: “Who are you?”

Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008

Galáxia nº 75
http://s132.photobucket.com/albums/q40/hanshino/galaxies/?action=view&current=galaxy75.jpg

"He, whose happiness is within, whose contentment is within, whose light is all within, that yogui, being one with Brahman, attains eternal freedom in divine consciousness".

Bhagavad - Gita


Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008

e assim nasceu. e falava. assiduamente.
era como o verão. que se abrira. recente.
como um clarão rubro de inocência. bebia
então taças tecidas de espanto. o
exílio.
iniciara-se. como uma teia. tecida lentamente. por
estranha e eterna aranha.
quando parido. por um período de vida.
fecundo. a mãe
linda. morrera ao pari-lo. que
eternidade vazia e vã. como a de
um deus. mítico ou não. que interessa isso.
para a posteridade.

Manoel Cardôzo
lxª18.07.2003

Terça-feira, Fevereiro 05, 2008

Fail

"Muitas vezes eu desisti sem mesmo tentar"



My body doesn't move out or move back. Never.

The body (my body) stays in, it stays on in - unmoving.

Nothing else ever.
There's never been anything else.

I've never tried anything else, never failed at anything else.

But it doesn't matter really.

And I'll try again, I'll fail again.
Always

I'll fail better than I did before.
Always...
.........

Inspirado na citação de Samuel Beckett
"Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better".
Ver aqui:
http://samuel-beckett.net/w_ho.htm

Sábado, Fevereiro 02, 2008

Nunca percas um segundo na tua vida a tentar mudar o que é imutável. Nunca exageres até ao ponto de perder uma vida para querer mudar um segundo naquilo que é imutável. Aceita-te.

Aceita.
"Devemos andar sempre bêbados. Tudo se resume nisto: é a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar. Mas com quê? Com vinho, com poesia ou com virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te. E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são: «São horas de te embriagares! Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com virtude, a teu gosto.»

Charles Baudelaire, Spleen de Paris, Relógio d’Água, Lisboa, 1991, p. 105

Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008

Eu vazio ou cheio?

Eu não sabia o que fazer nem o que dizer e eis que apelei ao amor-próprio. Eis que apelei à nossa infeliz condição humana baseada numa procura do preencher deste vazio impreenchível.

Segunda-feira, Janeiro 21, 2008

Laços

Laços - Toranja

Andamos em voltas rectas Na mesma esfera, Onde ao menos nos vemos Porque o fumo passou. A chuva no chão revela, Os olhos por trás. Há que levar o que restou E o que o tempo queimou. Tens fios de mais a prender-te as cordas, Mas podes vir amanha, Acreditar no mesmo Deus Tens riscos demais, A estragar-te o quadro. Se queres vir amanha, Acreditar no mesmo Deus Devolve-me os laços, meu amor! Devolve-me os laços, meu amor! Devolve-me os laços, meu amor! Devolve-me os laços.. Andamos em voltas rectas Na mesma esfera Mas podes vir amanhã Se queres vir amanhã Podes vir amanhã Tens riscos de mais A estragar-me a pedra Mas se vieres sem corpo À procura de luz Devolve-me os laços, meu amor! Devolve-me os laços, meu amor! Devolve-me os laços, meu amor! Meu amor Meu amor...

Toranja

Ver aqui: http://www.youtube.com/watch?v=zIfKivOzpYw


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"Andamos em voltas rectas Na mesma esfera"

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Estamos sempre, sempre na mesma, mesmíssima esfera com a ilusão real de contacto, em voltas rectas . Muitas vezes acontece que essa ilusão parece concretizar-se.
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"Onde ao menos nos vemos Porque o fumo passou".

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Acontece e deve ser justamente tratado como um "acontecimento". Deve ser celebrado, com cuidado para não riscar. Não partir. Sem euforias. Como ponto de partida. Mudança.

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"Tens riscos de mais A estragar-me a pedra Mas se vieres sem corpo À procura de luz".


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Com esse "acontecimento" de luz e energia, a esfera parece, parece abrir-se. Sem corpo porque com o autêntico corpo. Procurando a luz. Sempre.


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"A chuva no chão revela, Os olhos por trás. Há que levar o que restou E o que o tempo queimou".


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Os olhos que olham, olham com intensidade até chorarem. E finalmente verem. Depois pouco resta, e esse pouco basta. É imenso.

Quarta-feira, Janeiro 16, 2008

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser

"E uma vontade de rir nasce do fundo do ser. E uma vontade de ir, correr o mundo e partir, a vida é sempre a perder"

http://www.youtube.com/watch?v=9AvUeoH81ZI


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Uma vontade de rir da nostalgia do ser. Ela, essa vontade que vem das tripas, é o único antídoto para a tristeza. E a vontade de ir é uma força imensa que nos arrasta...


Uma vontade de quem nada tem a perder senão a sua não vida.

Segunda-feira, Janeiro 14, 2008

Caminhos

"Qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto algum - para si mesmo ou para os outros - abandoná-lo quando assim ordena o seu coração. (...) Olhe cada caminho com cuidado e atenção. Tente-o tantas vezes quantas julgar necessárias...

Então, faça a si mesmo e apenas a si mesmo uma pergunta: possui esse caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma."


C. Castaneda

Terça-feira, Janeiro 08, 2008

Sexo e amor

Continuando o debate do log anterior, encontrei um resumo de um livro do sociólogo italiano Francisco Alberoni, "Sexo e amor".

Talvez a vida actual seja complicada e fonte de muito sofrimento. Contudo emergem novas possibilidades, novas formas de ser mais ricas e abertas. Como em todos os partos, há fases dolorosas mas também novas vidas mais plenas e livres emergem.

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"Francesco Alberoni tem um novo livro editado em Portugal. Chamou-lhe "Sexo e Amor". A obra, que surge quase 30 anos após a publicação de "Enamoramento e amor", foi escrita como "uma consequência natural" dos estudos que sobre a matéria dos relacionamentos humanos Alberoni tem vindo a produzir.

"Sexo e Amor" marca um novo ponto de viragem , dando, pela primeira vez, uma ordem e um sentido à trama de aspectos divergentes e convergentes que relacionam o amor e o sexo.

"Pensei que valeria a pena estudar as várias sociedades, as várias combinações entre sexo e sociedade. Fiz vários retratos, a partir de centenas de entrevistas, e com eles tentei transmitir aquilo que os homens e as mulheres de hoje sentem, desejam, querem, repudiam".

Para Francesco Alberoni, "é muito difícil, senão impossível", que uma relação baseada só em sexo possa durar. "Na sociedade actual, em que o acesso à Internet está cada vez mais facilitado, o sexo ficou, por isso mesmo, mais vulgarizado", conclui. Alberoni também adianta que "é muito frequente que sejam as raparigas a terem mais cedo relações sexuais do que os rapazes. E isto acaba por lhes trazer grandes desilusões, porque afinal a um desejo muito intenso não corresponde uma grande satisfação sexual. O amor está em permanente conflito com o sexo. Ao contrário do que acontecia há um século, nos dias de hoje há cada vez mais uma tendência para chegar ao amor através do sexo. A pornografia, que a Internet tornou mais acessível aos mais jovens, favorece muito a sexualidade promíscua e a bissexualidade. Tudo isto funciona como um obstáculo ao que chamo o enamoramento. Porque este passa necessariamente por diversas fases. Passa pelo fascínio, pela interpretação, pelas provas de reciprocidade. Por isso é que cada vez mais difícil formar-se um casal. Transformar o enamoramento em amor é muito complicado. Há formas de paixão que têm todas as características de enamoramento mas que, no fim de contas, têm também mecanismos de autodestruição".

Para Francesco Alberoni, "o amor hoje em dia só acontece se houver uma extraordinária intimidade física e espiritual. Quem ama e não é amado sofre muito". O autor de "Sexo e Amor" defende também a ideia de que há de facto diferenças entre a sexualidade feminina e masculina. "Este é, aliás, o único domínio em que há diferenças. As mulheres são mais sensíveis aos odores, ao tacto. Uma mulher apaixonada pode ter um orgasmo só pelo facto de tocar um dedo da mão do homem que ama. No homem, pelo contrário, todas as sensações estão mais concentradas no pénis " .

Na obra agora editada pela Bertrand, Francesco Alberoni recorre a uma combinação de histórias verídicas e relatos na primeira pessoa, colhidos de entrevistas ou de obras literárias. A partir desta estrutura narrativa o sociólogo analisa as diferentes experiências amorosas subsequentes de cada uma das formas que o amor e o sexo podem tomar. O livro é um sucesso editorial em Itália onde em três meses vendeu mais de 30 mil exemplares".

Ana Vitória in JN de 15-11-2006

Quinta-feira, Janeiro 03, 2008

Blog / Há muitas virgindades... Não apenas a sexual...

O meu título é apelador...

Pedindo desculpa pelo "copy/past", não resisto a juntar este texto da Martha Medeiros.

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"VIRGINDADE EMOCIONAL

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Martha Medeiros


Todo mundo sabe o que é sexo. Nasce intuindo e em seguida vira PhD, pois basta ligar a tevê ou abrir uma revista e as informações caem no nosso colo com riqueza de detalhes. Masturbação, sexo oral, ponto G, preliminares, orgasmos múltiplos: você pode ser virgem na prática, mas sabe tudo na teoria e vai mandar bem quando chegar sua vez.

A pessoa virgem têm suas dúvidas, claro, e cria algumas fantasias antes da estréia, mas logo descobre que sexo é uma atividade saudável, prazerosa e que fica melhor com o tempo. Não tem muito mistério. O problema é quando se é virgem no coração.

Virgindade emocional não tem a ver com juventude. Você pode ter vida sexual ativa desde os 14 anos e chegar aos 30 sem saber nada sobre o amor.

Pode ter transado com dezenas de pessoas e uma que nunca lhe encostou um dedo abalar você de forma surpreendente. Pode estar casado e com filhos, achando-se o bambambam dos relacionamentos, e ser nocauteado por uma paixão que põe por terra todas as suas certezas. Podemos ser experts em sexualidade, mas passamos a vida engatinhando quando o assunto é amor.

De certa maneira, é uma virgindade que não se extingüe. Mesmo os mais experientes, aqueles que já amaram muitas vezes, até esses podem ser flagrados em uma situação-limite. A primeira vez em que se é deixado. A primeira vez que ficamos fragilizados com a ausência de uma pessoa. A primeira vez que sentimos um ciúme doentio. A primeira vez que ficamos dependentes de uma relação. A primeira vez que alguém fica dependente de nós. A primeira vez que traímos. A primeira vez que somos traídos. Tudo isso é um aprendizado muito mais intenso do que o sexo, e muito mais demorado.

Se isto parece assustador, por outro lado é excitante saber que ainda existe muito terreno a ser explorado, muitas lições para serem aprendidas, muitas posições a serem adotadas diante de um impasse amoroso, posições que nada tem a ver com o Kama Sutra. Não há manual de instruções para o amor, não há reportagem que nos ensine a melhor performance. Emocionalmente, por mais que já tenhamos vivido, seremos sempre um pouco virgens, aguardando a próxima primeira vez."

Ver aqui:

http://intervox.nce.ufrj.br/~jobis/m-virg.html

Terça-feira, Dezembro 18, 2007

Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste...

Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste...



"Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste:
"Parece Sexta-Feira de Paixão.
Sempre a cismar, cismar de olhos no chão,
Sempre a pensar na dor que não existe...

O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
Faça por estar contente! Pois então?!..."
Quando se sofre, o que se diz é vão...
Meu coração, tudo, calado, ouviste...

Os meus males ninguém mos adivinha...
A minha Dor não fala, anda sozinha...
Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!...


Os males de Anto toda a gente os sabe!
Os meus ...ninguém... A minha Dor não cabe
Em cem milhões de versos que eu fizera!...

Florbela Espanca


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Uma dor que não cabe em cem milhões de versos.

Nenhuma palavra exprime a dor. Nenhuma.

Não cabe dentro da palavra. Nunca coube. Por isso, aquele que escreve é também um construtor de metáforas sempre pobres perante este oceano que é a vida. As palavras são frágeis linhas que se lançam na imensidão da dor, da nossa dor original. Palavras que nos orientam no caos.



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Há uma força telúrica em Florbela Espanca. Algo que chega a assustar alguns. Talvez haja, nesta força da natureza, uma voz que vem do fundo. A nossa voz esquecida. Um olhar anterior. Primordial. Uma voz que, no nosso dia-a-dia feito de pequenos consumos e pequenas vidinhas, acaba por desaparecer em muitos de nós... Infelizmente.

Domingo, Dezembro 16, 2007

Boa Sorte / Good Luck

Há letras e músicas que nos superam.

Letras que são poemas extraordinários, licões de vida que nos acompanham como autênticos amigos. Total e incondicionalmente disponíveis.

É o caso da letra da canção "Boa sorte" de Vanessa da Mata e Ben Harper.

Para além das duas vozes que criam uma dobra dentro de nós, a letra descreve o fim de uma relação amorosa de uma forma pouco usual. É como se houvesse uma aceitação do fim porque é o começo de algo novo. A arte de recomeçar sempre. Depois de tomada uma decisão, desde que ela venha de dentro sem ser filtrada pelo nosso egozinho, deve-se ir em frente. A nossa vida é feita de milhares de decisões. Nunca devemos deixar que esse poder nos seja retirado. Nunca. Mesmo que a queda na noite nos assuste, nada há a temer quando essa paz interior nos invade. Uma paz que talvez jamais nos deixará...

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Boa Sorte / Good Luck

Vanessa Da Mata e Ben Harper

Composição: Vanessa da Mata


É só isso
Não tem mais jeito
Acabou, boa sorte
Não tenho o que dizer São só palavras
E o que eu sinto
Não mudará

Tudo o que quer me dar
É demais
É pesado
Não há paz
Tudo o que quer de mim
Irreais Expectativas Desleais

That's it
There's no way
It's over, Good luck
I have nothing else to say
It’s only words
And what l feel
Won’t change

Tudo o que quer me dar / Everything you want to give me
É demais / It's too much
É pesado / It’s heavy
Não há paz / There is no peace
Tudo o que quer de mim / All you want from me
Irreais / Isn’t real Expectativas / That expectations
Desleais

Mesmo se segure
Quero que se cure
Dessa pessoa
Que o aconselha
Há um desencontro
Veja por esse ponto
Há tantas pessoas especiais

Now even if you hold yourself
I want you to get cured
From this person
Who advises you
There is a disconnection
See through this point of view
There are so many special people in the world
So many special people in the world in the world

All you want All you want
Tudo o que quer me dar / Everything you want to give me
É demais / It's too much
É pesado / It's heavy
Não há paz / There's no peace
Tudo o que quer de mim / All you want from me
Irreais / isn’t real Expectativas / That expectations
Desleais

Now we're falling, falling, falling , falling into the night, into the night
Falling, falling, falling, falling into the night,into the night
Now we're falling, falling, falling , falling into the night, into the night
Falling, falling, falling, falling into the night


Ver aqui:

http://pt.netlog.com/go/out/url=-aHR0cDovL3d3dy55b3V0dWJlLmNvbS93YXRjaD92PWxSS01SZ2VhZzVn

Sábado, Agosto 18, 2007

Sem tempo para parar e pensar

Sem tempo para parar e pensar

A única esperança é o próximo copo.
Se te apetecer, podes passear.
Sem tempo para parar e pensar,
A única esperança é o próximo copo.
É inútil hesitar no limite,
Pior que inútil é toda esta conversa.
A única esperança é o próximo copo.
Se te apetecer, podes passear.

Tradução de José Agostinho Baptista.

Malcom Lowry


Retirado do blog:

Insónia

Diário de Malcom Lowry




"Sou capaz de conceber um escritor de hoje, mesmo um
escritor intrinsecamente de primeira classe, que simplesmen-
te não consegue entender, que nunca foi capaz de entender, o
que seus companheiros escritores estão ou estiveram buscando
e que sempre foi tímido demais para perguntar.

Tal escritor sente essa deficiência em si mesmo até as raias da angústia.

Essencialmente um camarada modesto, a vida toda ele tentou
entender o mais que pôde (embora talvez não o suficiente),
e assim seu quarto está repleto de Partisan Reviews, Kenyon
Reviews, Minotaurs, revistas Poetry, Horizons, até mesmo ve-
lhos Dials, de cujo conteúdo ele não consegue extrair absolu-
tamente nada.."

in Malcom Lowry "Através do Panamá"

Sexta-feira, Agosto 17, 2007

B de Beber (Gilles Deleuze)

Gilles Deleuze (1925-1995)


Gilles Deleuze entrevistado por Claire Parnet


B de Beber

"Gilles Deleuze: Bebi muito, bebi muito. Parei, bebi muito... Seria preciso perguntar a outras pessoas que beberam, perguntar aos alcoólatras. Acho que beber é uma questão de quantidade, por isso não há equivalente com a comida. Há gulosos, há pessoas... comer sempre me desagradou, não é para mim, mas a bebida é uma questão... Entendo que não se bebe qualquer coisa. Quem bebe tem sua bebida favorita, mas é nesse âmbito que ele entende a quantidade. O que quer dizer questão de quantidade? Zomba-se muito dos drogados, ou dos alcoólatras, porque eles sempre dizem: "Eu controlo, paro de beber quando quiser". Zombam deles, porque não se entende o que querem dizer. Tenho lembranças bem claras. Eu via bem isso e acho que quem bebe compreende isso. Quando se bebe, se quer chegar ao último copo. Beber é, literalmente, fazer tudo para chegar ao último copo. É isso que interessa.

[...] Em outros termos, um alcoólatra é alguém que está sempre parando de beber, ou seja, está sempre no último copo. O que isto quer dizer? É um pouco como a fórmula de Péguy, que é tão bela: não é a última ninféia que repete a primeira, é a primeira ninféia que repete todas as outras e a última. Pois bem, o primeiro copo repete o último, é o último que conta.

O que quer dizer o último copo para um alcoólatra? Ele se levanta de manhã, se for um alcoólatra da manhã, há todos os gêneros, se for um alcoólatra da manhã, ele tende para o momento em que chegará ao último copo. Não é o primeiro , o segundo, o terceiro que o interessa, é muito mais, um alcoólatra é malandro, esperto. O último copo quer dizer o seguinte: ele avalia, há uma avaliação, ele avalia o que pode agüentar, sem desabar... Ele avalia. Varia para cada pessoa. Avalia, portanto, o último copo e todos os outros serão a sua maneira de passar, e de atingir esse último. E o que quer dizer o último? Quer dizer: ele não suporta beber mais naquele dia. É o último que lhe permitirá recomeçar no dia seguinte, porque, se ele for até o último que excede seu poder, é o último em seu poder, se ele vai além do último em seu poder para chegar ao último que excede seu poder, ele desmorona, e está acabado, vai para o hospital, ou tem de mudar de hábito, de agenciamento.

De modo que, quando ele diz: o último copo, não é o último, é o penúltimo, ele procura o penúltimo. Ele não procura o último copo, procura o penúltimo copo. Não o último, pois o último o poria fora de seu arranjo, e o penúltimo é o último antes do recomeço no dia seguinte. O alcoólatra é aquele que diz e não pára de dizer: vamos... é o que se ouve nos bares, é tão divertida a companhia de alcoólatras, a gente não se cansa de escutá-los, nos bares quem diz: é o último, e o último varia para cada um. E o último é o penúltimo.
[...] Não, ele não diz: amanhã eu paro; diz: paro hoje para recomeçar amanhã.

CP: Então, já que beber é sempre parar de beber, como se pára de beber totalmente, já que você parou?

GD: É muito perigoso, me parece que acontece rápido. Michaux disse tudo, os problemas de droga e os problemas de álcool não estão tão separados. Há um momento em que isso se torna perigoso demais, porque, aí também é uma crista, como quando eu dizia "a crista entre a linguagem e o silêncio", ou a linguagem e a animalidade, é uma crista, é um estreito desfiladeiro.

Tudo bem beber, se drogar, pode-se fazer tudo o que se quer, desde que isso não o impeça de trabalhar, se for um excitante é normal oferecer algo de seu corpo em sacrifício.

Beber, se drogar são atitudes bem sacrificais. Oferece-se o corpo em sacrifício. Por quê? Porque há algo forte demais, que não se poderia suportar sem o álcool. A questão não é suportar o álcool, é, talvez, o que se acredita ver, sentir, pensar, e isso faz com que, para poder suportar, para poder controlar o que se acredita ver, sentir, pensar, se precise de uma ajuda: álcool, droga, etc.

A fronteira é muito simples. Beber, se drogar, tudo isso parece tornar quase possível algo forte demais, mesmo se se deve pagar depois, sabe-se, mas em todo caso, está ligado a isto, trabalhar, trabalhar. E é evidente que quando tudo se inverte, e que beber impede de trabalhar, e a droga se torna uma maneira de não trabalhar, é o perigo absoluto, não tem mais interesse, e, ao mesmo tempo, percebe-se, cada vez mais, que quando se pensava que o álcool ou a droga eram necessários, eles não são necessários.

Talvez se deva passar por isso, para perceber que tudo o que se pensou fazer graças a eles podia-se fazer sem eles.

Admiro muito a maneira como Michaux diz: agora, tornou-se, tudo isso é... ele pára. Eu tenho menos mérito, porque parei de beber por razões de respiração, de saúde, etc., mas é evidente que se deve parar ou se privar disso. A única justificação possível é se isso ajuda o trabalho. Mesmo se se deve pagar fisicamente depois. Quanto mais se avança, mais a gente diz a si mesmo que não ajuda o trabalho...

[...]

GD: É algo forte demais na vida, não é algo terrificante, é algo forte demais, poderoso demais na vida. Acredita-se, de modo um pouco idiota, que beber vai colocá-lo no nível desse algo mais poderoso. Se pensar em toda a linhagem dos grandes americanos. De Fitzgerald a... um dos que mais admiro é Thomas Wolfe. É uma série de alcoólatras, ao mesmo tempo que é isso o que lhes permite, os ajuda, provavelmente, a perceber algo grande demais para eles.

[...] Claro, eles fizeram uma obra e o que foi o álcool para eles? Eles se arriscaram, arriscaram porque pensaram, com ou sem razão, que isso os ajudava. Eu tive a sensação de que isso me ajudava a fazer conceitos, é estranho, a fazer conceitos filosóficos. Ajudava, depois percebi que já não ajudava, que me punha em perigo, não tinha vontade de trabalhar se bebesse. Então se deve parar. É simples.

CP: É uma tradição americana, são poucos os escritores franceses que confessaram sua queda pelo álcool. Além disso, há algo que faz parte da escrita...

GD: Os escritores franceses não têm a mesma visão de escrita. Não sei se fui tão marcado pelos americanos, é uma questão de visão, de vidências, aqui considera-se que a filosofia, a escrita, é uma questão... De maneira modesta, ver algo, que os outros não vêem, não é esta a concepção francesa da literatura, mas note, houve também muitos alcoólatras na França.

CP: Mas eles param de escrever, na França. Têm muita dificuldade, os que conhecemos. Poucos filósofos confessaram sua queda pela bebida.

GD: Verlaine morava na rua Nollet, aqui ao lado.

CP: Exceto Rimbaud e Verlaine.

GD: Aperta o coração, pois quando pego a rua Nollet, digo: era este o percurso de Verlaine para ir beber seu absinto. Parece que morou em um apartamento horrível."

Gilles Deleuze entrevistado por Claire Parnet

Sexta-feira, Agosto 10, 2007

El Alcohol - Marguerite Duras






"He vivido sola con el alcohol durante veranos enteros, en Neauphle. [...]

En general, los obsesos sexuales no son alcohólicos. Los alcohólicos, incluso «a nivel de vertedero», son unos intelectuales. El proletariado, que ahora es una clase más intelectual que la clase burguesa, de muy lejos, tiene una propensión al alcohol, en el mundo entero. El trabajo manual es sin duda de todas las ocupaciones del hombre la que le lleva más directamente hacia la reflexión, es decir hacia la bebida. Ved la historia de las ideas. El alcohol hace hablar. Es la espiritualidad hasta la demencia de la lógica, es la razón que intenta comprender hasta la locura por qué esta sociedad, por qué este Reino de la Injusticia... y que siempre concluye con una
misma desesperación. Un borracho es a veces grosero, pero raramente obsceno. Algunas veces se encoleriza y mata. Cuando se ha bebido demasiado, se vuelve al principio del ciclo infernal de la vida. Se habla de felicidad, se dice que es imposible, pero se sabe lo que quiere decir la palabra.

Carecemos de un dios. Este vacío que se descubre un día en la adolescencia nada puede hacer que jamás haya tenido lugar. El alcohol ha sido hecho para soportar el vacío del Universo, el mecimiento de los planetas, su rotación imperturbable en el espacio, su silenciosa indiferencia en el lugar de vuestro dolor. El hombre que bebe es un hombre interplanetario. Se mueve en un espacio interplanetario. Es allí donde permanece al acecho. El alcohol nos consuela, no amuebla los espacios psicológicos del individuo, sólo sustituye la carencia de Dios. No consuela al hombre. Produce lo contrario, el alcohol conforta al hombre en su locura, lo transporta a las regiones soberanas donde es dueño de su destino. Ningún ser humano, ninguna mujer, ningún poema, ninguna música, ninguna literatura ni ninguna pintura puede sustituir esta función del alcohol en el hombre, la ilusión de la creación capital. Está ahí para remplazarla. Y lo hace en toda una parte del mundo que habría debido creer en Dios y que ya no cree en él. El alcohol es estéril. Las palabras del hombre dichas en la noche de la borrachera se desvanecen con ella tan pronto como llega el día. La borrachera no crea nada, no va con las palabras, ofusca la inteligencia, la sosiega. He hablado bajo los efectos del alcohol. La ilusión es total: lo que uno dice, nadie lo ha dicho aún. Pero el alcohol no crea nada que permanezca. Es el viento. Como las palabras. He escrito bajo los efectos del alcohol, tenía una facultad para dominar la borrachera, que me venía sin duda del horror por la borrachera. Jamás bebía para estar borracha. Jamás bebía deprisa. Bebía todo el tiempo y nunca estaba borracha. Estaba retirada del mundo, inalcanzable, pero no borracha.


[...]

Un cuerpo alcohólico funciona como una central, como un conjunto de compartimentos
diferentes vinculados entre sí por la persona entera. El primer afectado es el cerebro. Es el pensamiento. La felicidad por el pensamiento primero y luego el cuerpo. Es ganado, empapado poco a poco, y transportado-, es la palabra: transportado. A partir de cierto tiempo se tiene la elección. Beber hasta la insensibilidad y la pérdida de la identidad, o permanecer en las primicias de la felicidad. Morir de algún modo cada día, o bien seguir huyendo.

[La vida material, traducción de Menene Gras Balaguer para Plaza &
Janés]

http://www.tijeretazos.net/Literaria/MDuras/MDuras013.htm

Quarta-feira, Agosto 01, 2007

Luz

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Charles Baudelaire, "O Spleen de Paris"

"Devemos andar sempre bêbados. Tudo se resume nisto: é a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar. Mas com quê? Com vinho, com poesia ou com virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te. E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são:
«São horas de te embriagares! Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com virtude, a teu gosto.»

Charles Baudelaire, "O Spleen de Paris"

Sábado, Novembro 11, 2006

Mulheres versus Matemática

Um matemático pensa A, diz B e escreve C. Uma mulher faz A, diz que fez B e julga que pensou C.